Alguns Pontos Capitais Concernentes a Vivência Espiritual - Parte II

(continuação)

O resultado disso é que tais pessoas ficam fora da época, fora do ambiente, não enfrentando a vida do mundo, não aprofundam suas experiências. Podem ir até o fim da vida nessa situação, porém depois que morrem e o que acontece? Terão que voltar aqui porque a Lei da Reencarnação é um fato, e quando aqui voltarem se sentirão completamente desambientados, porque não enfrentaram o mundo, não resolveram os problemas que o mundo oferece a todo instante não criam aquele instinto de criatividade, de coragem, de valor, da liberdade e ficam como que condicionados as fracas virtudes que acaso desenvolveram.

Poderão adquirir certas qualidades nessa encarnação, uma certa renúncia, uma certa humildade, um certo senso de espiritualidade, porém são como que flores delicadas que ao menor bafejo de um frio logo murcham e desaparecem, porque não tem resistência nenhuma.

Há de se buscar a libertação, não fugindo do mundo, porém enfrentando o mundo, como também, todos seus problemas. É nesse combate, nesses desassombros nossos para enfrentar o mundo, vamos desenvolvendo o desprendimento, a inteligência, à vontade, o amor, o ato com todas as criaturas e então nos tornamos seres muitos mais completos.

Esse foi o ensino que nos deu Krishna através de seu Evangelho, Bhagavad Gitã essa dádiva extraordinária, uma joia espiritual com o fundo mais filosófico e prático que Sri-Krishna legou a humanidade através de Arjúna. Ele nos ensina que a vida espiritual, a retidão de conduta e as qualidades superiores devem ser desenvolvidas em meio dos impactos da vida, aqui no mundo em contato direto com a Humanidade e com todos os seus problemas.

Sri-Krishna é aquele grande instrutor que nos diz: “Abandona o Mosteiro, abandona a Floresta, abandona sua reclusão, e sai para o mundo enfrentando os grandes problemas da vida, porque só aquele que sai pra os campos abertos da batalha é que desenvolve qualidades superiores e robustece suas energias internas e tornam-se verdadeiros gigantes a desafiarem aos maiores problemas”. Tal é o objetivo da verdadeira renúncia; o individuo renuncia as coisas propriamente pessoais para depois conseguir a conquista maior que é a sua libertação final, a sua iluminação interior.

Mas, tanto a renúncia como o apego, podem ser mais psicológico que materiais. Um indivíduo pode ter apego a um resultado pessoal de seu trabalho, isto é, que todos reconheçam o esforço que fez; que todos aplaudam a sua iniciativa e todos sintam gratidão pela obra que realizou pelo benefício que fez a determinadas pessoas. Nesse caso ele está apegado ao desejo de ver o resultado de seu trabalho. Mas isto é uma negação ou omissão da sentença de Cristo: “Que a mão esquerda não veja aquilo que a mão direita faça”.

Não sejamos, portanto, apegados naquilo que fazemos, porque tal apego é também um tropeço na vida espiritual. Pessoas que não tem apego a poderes materiais, porém tem apego ao psiquismo. Adquiriram poderes psíquicos e convenceram-se de que através desses poderes podem realizar maravilhas como dar saúde aos doentes, fazer aleijados andar, os pobres ricos, os cegos enxergar etc. Tudo não passa de pretensão de uma vaidade.

De sorte que aquele que está apegado também aos poderes psíquicos não compreendeu ainda o que é a verdadeira renúncia. Dele desertou o espírito de desapego. Tudo isso representa vaidade e perda de tempo. O tempo que se dedica ao desenvolvimento de faculdade psíquica deveria antes ser aplicado na prática do bem ou na aquisição de certas qualidades morais, espirituais ou mentais, o que é muito mais válido e mais útil do que a mera aquisição de faculdades psíquicas.

Psiquismo não é espiritualidade; bem ao contrário, frequentemente é uma negação da espiritualidade porque o psiquismo pode despertar e desenvolver no homem muito convencimento próprio, muito egoísmo, muita ganância e acabar lançando-o no abismo da perdição. Assim sendo o psiquismo não deve ser nunca o motivo de nossas preocupações. Quando atingirmos uma certa maturidade espiritual se necessário o psiquismo não virá normalmente e sem preocupação nenhuma.

Outro aspecto é o que queremos imiscuir-nos nos negócios alheios, nos interesses de outras pessoas, envolver-nos nas suas vidas particulares, sem para que isto tenhamos sidos solicitados. Esse hábito nos leva a envolver-nos nos carmas alheios e nos gerar consequências carmicas desagradáveis.

Os grandes instrutores, os mestres da sabedoria, nunca se envolveram em nosso carma particular. Como se aprende no Evangelho, Cristo não veio pegar a nossa cruz e carrega-la por nós, pois cada um que tem que carregar a sua própria cruz. Os mestres nos ensinam como é que devemos encarar e carregar a nossa cruz, é não toma-la e coloca-la em seus ombros. Ninguém vem a este mundo para livrar-nos da cruz carmica que trazemos do passado. Cristo nos disse que cada um devia carregar a sua própria cruz. Ensinou-nos que cada um devia carregar a sua própria cruz. Ensinou-nos que cada um devia desenvolver a compaixão, o amor, a coragem, a fé e a disciplina na vida espiritual, é o espirito que renuncia e é o alto sacrifício. Ele nos veio portanto dar luz e compreensão, maior vigor e orientação. Foi essa a sua ajuda como as dos demais instrutores que por aqui passaram.

A melhor ajuda que podemos dar aos nossos semelhantes é uma maior compreensão, mostrando-lhes que dentro deles estão todas as possibilidades de saírem das situações aflitivas e caóticas em que se encontram. Abrindo-lhe o entendimento, as próprias pessoas que se encaminham e se orientem. Mas se em vez disso lhe dizemos: “Vou vos salvar” e começarmos a conduzi-las pelas mãos até carrega-las ao colo, as estamos privando de abrir o seu entendimento, de reconhecer a sua situação e de ter iniciativa própria. E quando tivermos de dar nossa opinião, somente o façamos quando ela nos seja solicitada, e nunca o façamos com autoridade, vaidade, petulância, porém como amigos, como irmãos, como pais, como mães, procurando dar a cada um a devida compreensão e a ajuda espiritual que nos for possível.

Ainda em relação a pratica do desprendimento ou da renúncia, cabe-nos ter sobretudo a renúncia interna, jamais pretendendo fazer que a nossa opinião prevaleça sobre as demais opiniões. Jamais pretendamos ocupar a primeira posição nem julgar-nos melhores que os outros, mas sempre iguais a todas criaturas, sempre compreendendo que todos são filhos da mesma origem divina e herdeiros das mesmas glórias divinas. Então nos sentiremos realmente irmãos. (J. GERVÁSIO DE FIGUEIREDO, revista o Pensamento, ano 1888).

Assim concluímos o lindo trabalho desse autor.