Alguns Pontos Capitais Concernentes a Vivência Espiritual - Parte I

O Primeiro ponto é o discernimento, o segundo é o desapego, o terceiro é a boa conduta e o quarto ponto é o amor.

O Discernimento é o primeiro passo na Senda Espiritual, como também na Senda Material, no mundo cientifico, político, fisiológico. Quem não tem discernimento, dificilmente poderá ter êxito na vida, mormente na vida espiritual, é essa qualidade tão importante que o budista usa um vocábulo traduzido quer dizer “Abertura da Porta da Mente”. Isso significa que até então a mente como que estivera hermeticamente fechada em seus problemas, em seu dogmatismo, fanatismo, superstição, enfim, na sua ignorância. O Discernimento é a chave de ouro que abre essa porta e então faz com que o indivíduo possa ver o que é realmente a vida Espiritual.

O Discernimento não é apenas o primeiro passo, mas também o mais importante na senda espiritual, tanto quanto o é na vida prática.

O segundo é o Desprendimento, que alguns traduzem por renúncia. No budismo se fala muito em renúncia, que é também uma qualidade fundamental para que se possa triunfar na via espiritual e ainda na vida pública.

O indivíduo desprovido do espírito de renúncia, desprendimento, apega-se facilmente a uma de tantas coisas pessoais que constitui como que tropeço na sua vida, e entravando a sua evolução espiritual e material.

O apego, a falta do espírito de renúncia torna o individuo egoísta, medroso, supersticioso, ciumento, que lhe causam uma porção de entraves físicos e psicológicos. De sorte que a renúncia que o citado livro chama simplesmente de desprendimento, é uma das condições fundamentais para o triunfo da vida espiritual.

A renúncia ou desapego pode ser de muitas coisas. Às vezes, nos desapegamos das coisas de valores materiais, mas, no entanto, mantemos e defendemos o apego às coisas espirituais e celestiais. Amiúde um religioso se desapega facilmente de certos bens materiais, porém, internamente se apega aos bens celestes, e então pratica o bem não tanto por amor ao bem, não tanto por compreensão de que é seu dever praticar o bem e nunca o mal, mas, apenas porque visa depois receber recompensas no céu, quando lá chegar, e é lá que um dia chegará. Assim fazendo, ele apenas mudou a fórmula de desapego; desapegou-se das coisas materiais, mas apegou-se às espirituais.

Não se deve ter apego de espécie alguma. É relativamente fácil a gente desapegar-se de coisas materiais. Há os que se desapega da questão de posição, fama, de ter mais isto, mais aquilo, porém, estão apegados ao seu nome, a seu bem-estar, a sua felicidade particular, a sua libertação ou salvação.

Em resumo, ninguém de fato se liberta totalmente, mas apenas faz uma troca, uma espécie de comércio; troca de apego material por apego espiritual, apego transcende, mas, sempre apego, e, portanto, um impedimento para o individuo ascender a algo maior.

É o caso dos hindus que vivem preocupados com a libertação; entre eles a libertação de toda sua cultura, e de toda a sua filosofia e de toda sua religião.

Vamos ver esse extinto não só nos adultos, nas pessoas inteligentes, mas, mesmo nas pessoas de pouca inteligência, como também, nas próprias crianças, Uma criança não gosta que sua mãe ou seu pai esteja constantemente a segurar-lhe o braço, impedindo-a de brincar com este ou aquele brinquedo, que vá para aqui ou acolá; instintivamente ela quer se libertar. O mesmo acontece com o animal.

Qual o pássaro quer por sua livre vontade escolheria ficar confinado dentro de uma gaiola? Qual o leão iria escolher confinar-se dentro de uma jaula? Quer dizer que os próprios animais têm esse instinto de libertação.

A liberdade ou o sentido de libertação é uma coisa tão natural, tão inata no indivíduo quanto o seu instinto de respirar, de buscar ar, luz, de buscar alimentação ou bebida para satisfazer suas necessidades físicas.

O erro está de fazer-se dessa liberdade o ideal de libertação a preocupação única da vida. Isso tem levado muito a se libertar-se de uma porção de coisas antes do tempo, isto é, com falta de discernimento.

Na Índia tem sido comum chefe de família que ao atingir certa idade, abandonam a família e fogem da sociedade para se recolherem numa floresta ou num mosteiro.

Tem acontecido o mesmo no ocidente; pessoas que se alheiam do mundo, do contato com a humanidade, para enclausurarem-se num convento ou mosteiro e acabam enclausurando em si mesma e criam o seu próprio estreito mundo (continua). (J. Gervásio de Figueiredo, revista o Pensamento, ano 1888).